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| São Paulo - 19/03/2020 |
A leitura do texto "Entender o mundo que nos espera" de Edgar Morin, publicado no livro "Como viver em tempo de crise?", partiu do interesse em refletir sobre o momento atual pelo qual o mundo está passando.
O autor inicia o texto ressaltando a importância de observar a ambiguidade e ambivalência inerentes aos processos de crise. Nesse sentido, verdades e aspectos diferentes, ou até mesmo contrários, são tratados em coexistência. O que interessa aqui não é tentar eliminar as contradições, mas assumi-las para tentar compreender melhor o sistema da crise; ao invés de separar e compartimentar os conhecimentos, é preciso que haja sensibilidade para a complexidade dos acontecimentos.
No caso das crises, vivenciamos um agravamento das incertezas e favorecimento dos questionamentos, conforme defende Morin (2013). Ora, vivemos hoje o exemplo inigualável de como esses aspectos se materializam em uma crise mundial da saúde, com o novo coronavírus. É impossível precisar certezas absolutas a respeito do vírus e dos impactos que ainda pode causar na sociedade, para afirmar tais informações seria preciso deixá-lo agir sobre a população sem interferências, o que é totalmente fora de cogitação, uma vez que poderia colocar toda a espécie em risco. Ainda que sob a intervenção humana, no empenho em conter a propagação e desenvolver um tratamento, as incertezas continuam sendo imensuráveis, fazendo com que o fato de cuidar da própria saúde se torne questão de responsabilidade social.
Ao mesmo tempo em que a incerteza e o medo se propagam com a doença, vemos mobilizações bastante positivas por parte dos indivíduos que buscam soluções para problemas decorrentes dessa crise. É o caso daqueles que se dispõem a fazer compras para os vizinhos que pertencem ao grupo de risco; quem contrata serviços de pequenos empreendimentos, que serão utilizados apenas após a crise, ou continua pagando pelos serviços de profissionais autônomos e pedindo para que os mesmos permaneçam em suas respectivas casas, contribuindo para a estabilidade econômica dos trabalhadores, bem como com a prevenção da disseminação da doença; e, sobretudo, a grande conscientização a respeito do isolamentos voluntário, no intuito de fazer com que a covid-19 não se alastre ainda mais.
Do macro ao micro, a crise golpeia o cotidiano de todos, vivemos um sistema complexo, por um lado traz consequências lastimáveis e irreversíveis, por outro estimula nossa capacidade da superação e adaptação. É necessário repensar as relações sociais, políticas e econômicas, a rotina domiciliar, o trabalho, a pesquisa. A tecnologia a que possuímos acesso hoje permite com que muitos ofícios possam ser realizados de dentro da própria casa do trabalhador; da mesma forma, a educação também pode contar com recursos que o sistema tradicional não era capaz de oferecer, possibilitando a continuidade das discussões e pesquisas, tão importantes nesse momento crítico, mas sem que haja a necessidade de recorrer a uma educação à distância sucateada e simplista.
As metamorfoses que ocorrem em nosso mundo, como as que estamos presenciando neste momento, dependem de um quê de imprevisibilidade, conforme explana Morin (2013), antes de se tornarem uma força real, são apenas meras possibilidades, não possuem a marca do provável: "Não será uma salvação imediata, e certamente teremos de superar grandes dificuldades, empreender vários tipos de reformas, da sociedade, das mentalidades, dos valores... Por que não?" (MORIN, 2013, p. 23).
Apesar de toda a incerteza que as crises trazem, Morin insiste na necessidade de não entrar em estado de resignação, aponta a imprescindibilidade de pensar, agir com consciência: "É muito difícil conhecer o presente, movimentos imperceptíveis ocorrem na profundidade. O presente, o real, não é aquilo que parece estável. Ser realista, que utopia! É preciso estar aberto para o incerto, para o inesperado. É preciso ser sensível ao fraco, ao acontecimento que nos surpreende; é preciso estar pronto para repensar incansavelmente o estado do mundo." (MORIN, 2013, p. 25).
Estar aberto exige a façanha de fazer apostas, mudar os caminhos, explorar outras possibilidades, caso necessário; esse é o pensamento do autor, que finaliza suas reflexões de maneira bastante otimista: "A incerteza estimula porque convoca a aposta e a estratégia. Não se deve, é verdade, avançar de maneira pulsional e irrefletida, mas é preciso agir. Aposta e estratégia, e adiante!" (MORIN, 2013, p. 27).
Referência:
MORIN, Edgar. Entender o mundo que nos espera. In: MORIN, Edgar; VIVERET, Patrick. Como viver em tempo de crise? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. 80 p.
Referência:
MORIN, Edgar. Entender o mundo que nos espera. In: MORIN, Edgar; VIVERET, Patrick. Como viver em tempo de crise? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. 80 p.

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